Para Ubi
ao sol desabrochada
alegre e colorida
docemente perfumada
por ti recém colhida
e lentamente exalada.
Assim me sinto em brandura
quando o laço do teu braço
me cinge toda pela cintura.
Simpatia
(do grego "sentir com")
Há dias em que o mundo faz tanta solidão, e o ar destila prantos inaudíveis, lágrimas invisíveis, de uma alma perdida em outra dimensão. Que língua é essa em que me fala o coração? Que tradutor me dará a imagem desta aflição fantasmal? Uma amiga. Levando pela mão a criança desta angústia sem rosto, lhe fará sentar à sombra para contar-lhe histórias, descrevendo com sua boca e seu viver as paisagens de rios incógnitos de um ser: episódios emocionantes e suas cores comoventes, seus contornos dissimulados, sua música de súbito finale triste que fica pairando no ar. E ao terminar o conto, soltando-lhe a mão, a criança de mim reconhece o entorno de mim mesma e sinto da amiga a mão recolher-me as águas à foz e fazê-las precipitar sonoramente pelo rosto, encher de notas o silêncio. Formam-se lagos e nos vemos, e velamos essa dor. Nossas imagens escoam pouco a pouco para debaixo da terra, onde nos confundimos na escuridão. Buscamos luz e saídas, e nos vemos de pronto verdes à superfície, a idear as alturas da alegria feliz da compaixão, e florescer e cantar e ter sempre a tua mão, porque existir sozinha é sem paixão, e eu não sei nem chorar.
O Beijo do Hotel de Ville, Robert Doisneau (1950)





As crianças de Brilhossol não conheciam o espetáculo da chuva, inexistente na cidade. Suas vidas se faziam no seco, no morno e aconchegante carinho dos raios do sol: esse prato dourado que dependuraram no meio do azul.
vão surgindo como eco: na rua ao lado, no outro quarteirão, três quadras para frente, e assim por toda a cidade. A gurizada toda é unânime e responde com um impassível "tô indo" que leva no mínimo uns quinze minutos mais, quando então voltam a soar os ecos maternais.
Introdução
Hoje é um dia muito muito especial. Dia de festa, de bandeirinhas penduradas entre os postes das ruas, de música nos autofalantes, de doces coloridos, de liberdade em voz alta. É o dia do aniversário de Brilhossol, uma cidade muito falada pelo mundo a fora, mas raramente visitada. É um dia mágico, especialmente para as crianças, um dia que, por uma graça divina, caiu bem no meio das férias. E não há lugar no mundo onde as férias sejam mais extensas e inesquecíveis do que em Brilhossol.
E se esta cidade é tão maravilhosa assim, porque não vão todos para lá, como seria natural de se pensar? Porque ela não se transformou numa metrópole para onde toda criança e adulto querem se mudar? Uma cidade onde as férias são quase intermináveis e completamente inesquecíveis não deveria estar cheia de gente?
Acontece que o acesso a ela é bastante difícil. Ela está no fim de todos os caminhos, na conjunção de todas as cores e de todas as luzes; ela é, diz toda a gente, a pérola perdida de todos os povos do mundo, o pote de ouro no fim do arco-íris. E como não é todo dia que se forma um arco-íris para se seguir, as pessoas acabam não podendo visitar a cidade. Quando acontece dele se formar, a pessoa não pode naquele dia, noutro dia ela pode, espera e nada de arco-íris. E há de se considerar que é comum que se passem meses e até anos sem que se veja no céu um só arco-íris. Desta forma, a atividade turística na cidade é certamente nula e os habitantes de Brilhossol chegam mesmo a se assustarem quando aparece algum forasteiro. Quando isso se dá, a cidade toda se transforma e ocorre uma verdadeira revolução no seu funcionamento normalmente pacato e tradicional. A gente toda modifica seu comportamento, tão grande é a repercussão da chegada do estrangeiro. Este, impressionado com aquele tesouro perdido, nem consegue acreditar no que lhe aconteceu. E de volta à sua terra, acaba convencendo-se de que tudo não passou de um sonho maravilhoso ou então pertence a um passado longínquo, situado lá na sua mais tenra infância, que só poderia existir através de lembranças. Quase todos os pouquíssimos estrangeiros que conseguiram encontrar essa maravilhosa cidade sofriam dessa espécie de amnésia. Mas havia aqueles que, fascinados pela cidade, decidiam ficar e abandonavam tudo para poderem continuar vivendo no brilho e na perfeição perenes de Brilhossol.
Mas como íamos dizendo, hoje é dia de festa em Brilhossol. Felizmente não há nenhum forasteiro de passagem, pois com a festa já se tem agitação suficiente para esta pacatíssima cidade, onde tudo costuma estar em seu devido lugar. As festas em Brilhossol são uma tradição de tanto tempo que não se sabe nem desde quando. Da fundação da cidade tem-se notícia apenas através de um livro muito grosso e antigo, que não traz data, mas no qual há uma descrição do local que, com poucas modificaçöes, continua correspondendo à Brilhossol atual.
Mas antes de ver esta festa tão bonita, vamos falar um pouco mais da cidade, da gente da cidade, da vida da gente da cidade de Brilhossol.


Eu queria poder