domingo, agosto 19, 2007

Na campina, em flor


Na campina, em flor

Para Ubi


Uma flor de vida
ao sol desabrochada
alegre e colorida
docemente perfumada

por ti recém colhida
e lentamente exalada.
Assim me sinto em brandura
quando o laço do teu braço
me cinge toda pela cintura.

sexta-feira, julho 27, 2007

PARA AS MINHAS AMIGAS-IRMÃS

O texto abaixo foi publicado anteriormente em outro Blog, agora desativado. Volto a publicá-lo em homenagem às minhas amigas-irmãs queridas sem as quais eu sei que nâo seria a pessoa que sou hoje, mais amada, mais feliz e mais livre do que antes de receber o imenso carinho que elas me dedicam. O texto foi originalmente inspirado na amizade com a minha comadre-irmã-amiga Ana Lúcia Trevisan, mas a semente que o inspirou, frutificou e gerou muitas outras sementes, que encheram de flores a minha vida. Minhas amigas, vocês são flores e com vocês minha vida é sempre um jardim!


Simpatia

(do grego "sentir com")

Há dias em que o mundo faz tanta solidão, e o ar destila prantos inaudíveis, lágrimas invisíveis, de uma alma perdida em outra dimensão. Que língua é essa em que me fala o coração? Que tradutor me dará a imagem desta aflição fantasmal? Uma amiga. Levando pela mão a criança desta angústia sem rosto, lhe fará sentar à sombra para contar-lhe histórias, descrevendo com sua boca e seu viver as paisagens de rios incógnitos de um ser: episódios emocionantes e suas cores comoventes, seus contornos dissimulados, sua música de súbito finale triste que fica pairando no ar. E ao terminar o conto, soltando-lhe a mão, a criança de mim reconhece o entorno de mim mesma e sinto da amiga a mão recolher-me as águas à foz e fazê-las precipitar sonoramente pelo rosto, encher de notas o silêncio. Formam-se lagos e nos vemos, e velamos essa dor. Nossas imagens escoam pouco a pouco para debaixo da terra, onde nos confundimos na escuridão. Buscamos luz e saídas, e nos vemos de pronto verdes à superfície, a idear as alturas da alegria feliz da compaixão, e florescer e cantar e ter sempre a tua mão, porque existir sozinha é sem paixão, e eu não sei nem chorar.


Tanque de ninféias, Monet

terça-feira, julho 24, 2007

DEFICIÊNCIAS, de Mario Quintana




Grandes conselhos do mestre Quintana
para que não sejamos nem covardes
nem mesquinhos com a vida!!

"Deficiente"
é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

"Louco" é quem não procura ser feliz com o que possui.

"Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria, e só tem olhos para seus míseros problemas e pequenas dores.

"Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão. Pois está sempre apressado para o trabalho e quer garantir seus tostões no fim do mês.

"Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

"Paralítico" é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.

"Diabético" é quem não consegue ser doce.

"Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer.

E, finalmente, a pior das deficiências é ser miserável, pois:

"Miseráveis" são todos que não conseguem falar com Deus.

"A amizade" é um amor que nunca morre.

sexta-feira, julho 20, 2007

AMIZADE



Em homenagem ao Dia da Amizade

"A amizade é um livro aberto à felicidade do coração."
(Miguel de Unamuno)

Fotografia: Frans Lanting, Botswana

quinta-feira, julho 19, 2007

segunda-feira, julho 16, 2007

¡¡AMAR: aventura de vivir!!

Ay como me gusta
soñar muy alto y cantar
el ideal que me frustra
pero que vivo a desear

Sensualidad y seducción
juego infantil e inocente
amor sincero en el corazón
todo en mí vivo y presente
todo fuego de quimeras
que quema mis versos sin pena
que crea mundos y esferas
perfectas de vida plena.

Sale un sueño y entra otro
sale el sol y viene la aurora
mientras desangra el corazón roto
¡mi alma el tiempo devora!


O Beijo do Hotel de Ville, Robert Doisneau (1950)

quinta-feira, julho 05, 2007

Das regras inversas do amor: no 3



Perdido na selva (Osho)



A alegria do amor só é possível se você tiver conhecido a alegria de estar sozinho, porque só então você terá algo para compartilhar. De outra forma, serão dois mendigos se encontrando, agarrando-se um ao outro, mas não poderão obter o êxtase. Criarão infelicidade para ambos, porque cada um irá esperar em vão, que o outro o preencha. O outro está esperando a mesma coisa. Não podem se completar. Ambos estão cegos, não podem ajudar um ao outro.




Ouvi contar de um caçador que se perdeu na selva. Por três dias ele não conseguiu encontrar ninguém para perguntar pelo caminho de volta, e ele estava ficando cada vez mais assustado, entrando em pânico - três dias sem comer e com um medo constante de animais selvagens. Por três dias ele não foi capaz de dormir; ele ficava sentado acordado em alguma árvore, com receio de ser atacado. Havia cobras, leões, e outros animais selvagens. No quarto dia de manhã cedo, ele viu um homem sentado debaixo de uma árvore. Você pode imaginar sua alegria. Ele correu, abraçou o homem, e disse: "Que alegria!" e o outro homem também o abraçou, e ambos estavam imensamente felizes. Depois eles perguntaram um ao outro, "Por que você está tão contente?"O primeiro disse, "Eu estava perdido e esperava encontrar alguém." E o outro disse: "Eu também estou perdido e esperava encontrar alguém. Mas se ambos estamos perdidos então nossa felicidade é pura tolice. Agora estamos perdidos juntos!"




É isso que acontece: você está sozinho, a outra pessoa está sozinha. Então vocês se encontram. Primeiro há a lua-de-mel, o êxtase do encontro, o êxtase por não estarem mais sozinhos. Mas dentro de três dias ou, se você for inteligente o bastante, dentro de três horas... depende de quão inteligente você for. Se for tolo, irá levar mais tempo, pois pessoas tolas são aquelas que não aprendem. Caso contrário, uma pessoa bem inteligente pode perceber em até três minutos... "O que estamos tentando fazer? Não vai funcionar. Essa outra pessoa está tão sozinha quanto eu. Agora iremos viver juntos, serão duas solidões juntas. Juntar duas feridas não faz com que elas se curem."



Cada um de nós é parte dos outros, nenhum homem é uma ilha. Pertencemos a um continente invisível porém infinito. Nossa existência não possui limites. Contudo, essas experiências só são vividas pelas pessoas que estão se aperfeiçoando, que estão em um estado de amor tão grande consigo mesmas que podem fechar os olhos, ficar sozinhas e ainda assim estar em êxtase absoluto.

terça-feira, julho 03, 2007

Confiar no que sentimos e no que acreditamos


Não desperdice a sua vida com aquilo que lhe vai ser tirado. Confie na vida. Se você confiar, só então, será capaz de abandonar o seu conhecimento, só então, poderá colocar de lado a sua mente. E com a confiança, algo imenso tem início. Esta vida deixa de ser uma vida comum, torna-se plena de Deus, transbordante. Quando o coração se torna inocente e espontâneo as paredes desaparecem, você fica ligado ao infinito. E você não terá sido enganado; não existirá nada que lhe possa ser tomado. Aquilo que pode ser tirado de você, não vale a pena guardar; e aquilo que não há como ser tirado de você, por que haveria alguém de ter medo que lhe seja tirado? -- não pode ser levado, não há possibilidade. O que se vai, na verdade, nunca foi seu. Você não pode perder o seu tesouro verdadeiro.


Osho, O sol nasce de noite, capítulo 9.

segunda-feira, julho 02, 2007

Conclusão





Todas as respostas vêm incompletas. O mestre só nos dá a direção... No momento em que chegamos ao limite, sabemos o que vai permanecer.

sábado, junho 23, 2007

Aprendendo a viver sem ansiedade...

Momento a momento


O passado já se foi e o futuro ainda não chegou: ambos estão se movimentando desnecessariamente em direções que não existem. Um existia, mas não existe mais, e o outro nem sequer começou a existir ainda. A pessoa equilibrada é a que vive momento a momento, cuja atenção está voltada para o momento presente, que sempre está aqui e agora. Onde quer que ela se encontre, toda a sua consciência, todo o seu ser está envolvido na realidade do aqui e na realidade do agora. Essa é a única direção certa. Só um homem assim está habilitado a adentrar o portal dourado. O momento presente é o portal dourado. O aqui-agora é o portal dourado. ... E você só consegue estar no momento presente se não for ambicioso -- nenhuma meta a realizar, nenhuma pretensão de poder, de dinheiro, de prestígio, ou mesmo de iluminação, porque toda ambição coloca você no futuro. Apenas um homem não ambicioso é capaz de permanecer no momento presente. Um homem que queira estar no momento presente não tem que pensar; precisa apenas ver e adentrar o portal. A experiência virá, mas não precisa ser premeditada.
Osho, The Great Zen Master Ta Hui, capítulo 37
(Carta do Tarot Osho Zen, tirada no site:
http://www.osho.com/Main.cfm?Area=Magazine&Sub1Menu=Tarot&Sub2Menu=OshoZenTarot&Language=Portuguese)


domingo, junho 17, 2007

Das regras inversas do amor: no 2

A PESSOA ERRADA


Pensando bem, em tudo o que a gente vê, e vivencia, e ouve e pensa,
não existe uma pessoa certa pra gente
Existe uma pessoa que, se você for parar pra pensar é,
na verdade, a pessoa errada
Porque a pessoa certa faz tudo certinho
Chega na hora certa,
Fala as coisas certas,
Faz as coisas certas,
Mas nem sempre a gente tá precisando das coisas certas
Aí é a hora de procurar a pessoa errada
A pessoa errada te faz perder a cabeça
Fazer loucuras
Perder a hora
Morrer de amor
A pessoa errada vai ficar um dia sem te procurar
Que é pra na hora que vocês se encontrarem
A entrega ser muito mais verdadeira
A pessoa errada é na verdade, aquilo que a gente chama de pessoa certa.
Essa pessoa vai te fazer chorar
Mas uma hora depois vai estar enxugando suas lágrimas
Essa pessoa vai tirar seu sono
Mas vai te dar em troca uma noite de amor inesquecível
Essa pessoa talvez te magoe
E depois te enche de mimos pedindo seu perdão
Essa pessoa pode não estar 100% do tempo ao seu lado
Mas vai estar 100% da vida dela esperando você
Vai estar o tempo todo pensando em você
A pessoa errada tem que aparecer pra todo mundo
Porque a vida não é certa
Nada aqui é certo
O que é certo mesmo, é que temos que viver cada momento, cada segundo.
Amando, sorrindo, chorando, emocionando, pensando, agindo, querendo, conseguindo.
E só assim é possível chegar àquele momento do dia
Em que a gente diz: "Graças à Deus deu tudo certo"
Quando na verdade
Tudo o que Ele quer
É que a gente encontre a pessoa errada
Para que as coisas comecem a realmente funcionar direito pra gente.
Nossa missão:
Compreender o universo de cada ser humano,
respeitar as diferenças,
brindar as descobertas, buscar a evolução.
Quando a gente acha que tem todas as respostas,
vem a vida e muda todas as perguntas ...




Luiz Fernando Veríssimo

quinta-feira, junho 14, 2007

Que digam por mim...

Três Lados
(Skank )

Escutei alguém abrir os portões
Encontrei no coração multidões
Meu desejo e meu destino brigaram como irmãos
E a manhã semeará outros grãos

Você estava longe, então
Por que voltou
Com olhos de verão
Que não vão entender?

E quanto a mim, te quero, sim
Vem dizer que você não sabe
E quanto a mim, não é o fim
Nem há razão pra que um dia acabe

Cada um terá razões ou arpões
Dediquei-me às suas contradições, fissões, confusões
Meu desejo, seu bom senso, raivosos feito cães
E a manhã nos proverá outros pães

Os deuses vendem quando dão
Melhor saber
Seus olhos de verão
Que não vão nem lembrar

E quanto a mim, te quero, sim
Vem dizer que você não sabe
E quanto a mim, não é o fim
Nem há razão pra que um dia acabe
Somos dois contra a parede e tudo tem três lados
E a noite arremessará outros dados

Os deuses vendem quando dão
Melhor saber
Seus olhos de verão
Que não vão nem lembrar

E quanto a mim, te quero, sim
Vem dizer que você não sabe
E quanto a mim, não é o fim
Nem há razão pra que um dia acabe


Para ouvir a música acesse:
http://www.kboing.com.br/script/radioonline/radio/player.php?musica=43083&op=1

Todo mundo se comunica mal!!


Essas palavras nada podem expressar

mais vale um olhar

mais vale ler

toda a confusão do meu ser

ao te ver

e até mesmo

ao te escrever!

domingo, maio 27, 2007

Das regras inversas do amor: no 1


Procures me amar quando menos mereço, pois é quando mais preciso.

domingo, janeiro 07, 2007

Dádiva divina
















"de graça recebestes, de graça dai" (Mateus 10:8)





Que saibamos DAR e RECEBER muito mais em 2007!!!!

sábado, dezembro 16, 2006

Capítulo 1

As crianças de Brilhossol não conheciam o espetáculo da chuva, inexistente na cidade. Suas vidas se faziam no seco, no morno e aconchegante carinho dos raios do sol: esse prato dourado que dependuraram no meio do azul.
Conta tio Abelardo que ele é o olho de Deus a cuidar de todos aqui embaixo. Tio Abelardo, que mora no alto da Rua das Mangueiras, passa todo o dia, com exceção das horas do almoço e do jantar, sentado à soleira da porta de sua casa contando histórias, ou melhor, contando uma só e grande história que sempre se repete sem nunca ser igual. Memoráveis discussöes entre adultos houve na praça central sobre "de como foi que disse Seu Abelardo". Mas como "quem conta um conto aumenta um ponto", nunca se podia comprovar se fora tio Abelardo que modificara a história ou se o fizera a pessoa que a estava recontando. Era só um dos ouvintes protestar:
- Não foi assim que eu escutei o tio Abelardo contar não -,
e logo começavam as acusaçöes:
- Que vergonha, te pegaram numa mentira, heim? -,
e o outro logo se defendia:
- Que mentira que nada, se posso jurar por tudo que quiserem que estou contando a história tal qual ouvi.
A culpa era sempre daquele que recontava, pois tio Abelardo, a mais antiga personalidade de Brilhossol, seu habitante mais sábio, jamais poderia ser acusado de um falseamento, de uma mentira, por menor que fosse. O tempo, que baralha a memória, era fator também que contribuía aos enganos. Tio Abelardo contava histórias às crianças de Brilhossol, e desde o tempo da infância, muito do contado podia ter-se perdido na lembrança. O único adulto que se atrevia a acusar tio Abelardo de distorçöes nas histórias era Josias:
- Quando eu digo que esse tio Abelardo muda as histórias... -,
ao que imediatamente todos reagiam:
- Lá vem você de novo acusando o tio Abelardo, querendo insinuar más intençöes naquele que nos educou a todos com os seus ensinamentos. Você deveria se envergonhar!
Josias não se atrevia a ir além. Calava-se, mas continuava firme em suas idéias. Tinha para ele que tio Abelardo provavelmente sofria de um problema crônico de memóia. Não questionava o grande valor de seus ensinamentos, nem se atrevia a pensar que o homem mudasse as histórias por maldade, não, isso não podia ser. Afastava essa idéia sempre que ela lhe vinha à cabeça. Mas que o velho modificava as histórias, isso modificava mesmo. Mas como discutir não é um hábito que se deva cultivar em Brilhossol - principalmente se há crianças por perto -, Josias não insistia. Em Brilhossol não se abordava o tema das versöes da história de tio Abelardo na frente das crianças: Discussöes não eram exemplo para se dar a elas, além do que, podiam tirar-lhes o gosto das horas de distração e instrução junto ao velho sábio.
Mas onde está tio Abelardo, nesse dia de festa de Brilhossol? Está à porta de sua casa. Na frente dele, sentados em semicírculo, sentindo aquele calorzinho gostoso que o sol deixou no piso da calçada, estão as crianças escutando. Tio Abelardo conta um de seus episódios mais freqüentes: o da chegada do sol à cidade. Conta como tudo se iluminou quando o sol, por primeira vez, movido pela curiosidade, espichou alguns de seus raios para as bandas de Brilhossol.
A cidade, ou melhor, o lugar onde seria mais tarde a cidade, não passava então de um simples descampado pantanoso, húmido, sem vida e sem alegria, povoado apenas de sombras tristes e folhas mortas. O primeiro raio de sol, ao deslocar uma sombra, conversou com a terra escondida daquele lugar e lhe disse da muita alegria e do amor que tinha para lhe oferecer. E consolou-a da sua grande tristeza, fruto somente da solidão. A terra ainda argumentou, desiludida, que não acreditava mais que pudesse ainda ser feliz. Mas tudo não passava de resistência, essa resistência que se tem de tentar, por puro medo de não conseguir algo que se quer muito. E com o amor do sol, a vida voltou à terra e brotaram plantas frondosas e surgiram animais saltitantes e aves canoras. E o riso da terra voltou a ser visto cintilante por baixo da água do rio.
- Sim, porque saibam - dizia tio Abelardo - que aquele brilho que ofusca o olho nas águas do rio é o riso da terra que mostra seus dentes de ouro e diamantes. E assim nasceu essa Brilhossol maravilhosa que nós amamos tanto!
E tio Abelardo parou de falar neste ponto. Todo mundo em silêncio esperava que ele continuasse, mas ele não perecia querer prosseguir. Todos esperavam, menos Soluço, que olhava concentrado a casa da prefeitura do outro lado da rua. Com o ar pensativo e um dedo erguido a meio esticar, o menino, começou a dizer:
- E de onde veio todo o resto? Quem, então, construiu as casas e o parque, quem é que fez a prefeitura?
E tio Abelardo, como se já conhecesse ou previsse há muito tempo a pergunta, respondeu prontamente:
- Seu Lauzanio, filho. Seu Lauzanio, grande mestre de obras, e seu filho Lauzaninho, vieram para ver o riso da terra na beira do rio e ficaram.
Novamente o silêncio. Tio Abelardo fumava seu cigarrinho de palha e olhava para o chão. E aproveita Pimenta a oportunidade de falar - uma das coisas de que ela mais gosta de fazer - e diz:
- Seu Lauzanio foi em casa ontem pra levar uns tijolos pro meu pai.
- É, filha, eu também me lembro de Seu Lauzanio levando tijolos para meu pai. Todos se lembram - respondeu tio Abelardo.
Os Lauzanios ali sempre estiveram para cuidar de todas as obras e reformas de Brilhossol. A sucessão de Lauzanios era quase imperceptível para quem acompanhasse a substituição dos pais por seus filhos na mesma função de pedreiro. Todos os Lauzanios eram tão incrivelmente parecidos, idênticos mesmo, que as pessoas nunca sabiam se aquele com quem falavam era o pai, o filho ou o neto do último Lauzanio que havia feito alguma obra em sua casa. Mas ninguém se importava absolutamente com isso em Brilhossol. Todos os Lauzanios mereciam o mesmo respeito e carinho por parte da população da cidade. Afinal onde é que toda essa gente ia morar se não fossem os Lauzanios? E por toda parte sempre se ouvia, depois de qualquer consideração sobre uma casa:
- Grande Lauzanio! O que seria de nós sem ele?
E sempre que havia qualquer problema, um reboco caído aqui, uma rachadura ali, já se ouvia alguém lá dizer:
- Mande chamar o Lauzanio.
Mas chega de tanta conversa, porque é hora do almoço e a primeira mãe já desponta na janela da casa em frente com seu retumbante "tá na mesa!", chamando o estômago faminto da criançada. Segundos depois, outros "tá na mesa" vão surgindo como eco: na rua ao lado, no outro quarteirão, três quadras para frente, e assim por toda a cidade. A gurizada toda é unânime e responde com um impassível "tô indo" que leva no mínimo uns quinze minutos mais, quando então voltam a soar os ecos maternais.
Tio Abelardo a esta hora não estica conversa: vai logo dizendo a todos que não devem desobedecer às suas mães, e que alimentar-se é importantíssimo para crescer e ficar forte. Mas todos detestam deixar as histórias pela metade e pedem que conte "mais um pouquinho"...

domingo, dezembro 03, 2006

Uma história infanto-juvenil

Queridos amigos,

há alguns anos venho escrevendo uma história infanto-juvenil intitulada Na terra do céu. Passo a publicá-la, em entregas, nesse blog e gostaria de contar com os seus comentários para poder melhorá-la. Grande beijo e obrigada, desde já, pela sua leitura.



Na terra do céu


Introdução


Hoje é um dia muito muito especial. Dia de festa, de bandeirinhas penduradas entre os postes das ruas, de música nos autofalantes, de doces coloridos, de liberdade em voz alta. É o dia do aniversário de Brilhossol, uma cidade muito falada pelo mundo a fora, mas raramente visitada. É um dia mágico, especialmente para as crianças, um dia que, por uma graça divina, caiu bem no meio das férias.
E não há lugar no mundo onde as férias sejam mais extensas e inesquecíveis do que em Brilhossol.

E se esta cidade é tão maravilhosa assim, porque não vão todos para lá, como seria natural de se pensar? Porque ela não se transformou numa metrópole para onde toda criança e adulto querem se mudar? Uma cidade onde as férias são quase intermináveis e completamente inesquecíveis não deveria estar cheia de gente?

Acontece que o acesso a ela é bastante difícil. Ela está no fim de todos os caminhos, na conjunção de todas as cores e de todas as luzes; ela é, diz toda a gente, a pérola perdida de todos os povos do mundo, o pote de ouro no fim do arco-íris. E como não é todo dia que se forma um arco-íris para se seguir, as pessoas acabam não podendo visitar a cidade. Quando acontece dele se formar, a pessoa não pode naquele dia, noutro dia ela pode, espera e nada de arco-íris. E há de se considerar que é comum que se passem meses e até anos sem que se veja no céu um só arco-íris. Desta forma, a atividade turística na cidade é certamente nula e os habitantes de Brilhossol chegam mesmo a se assustarem quando aparece algum forasteiro. Quando isso se dá, a cidade toda se transforma e ocorre uma verdadeira revolução no seu funcionamento normalmente pacato e tradicional. A gente toda modifica seu comportamento, tão grande é a repercussão da chegada do estrangeiro. Este, impressionado com aquele tesouro perdido, nem consegue acreditar no que lhe aconteceu. E de volta à sua terra, acaba convencendo-se de que tudo não passou de um sonho maravilhoso ou então pertence a um passado longínquo, situado lá na sua mais tenra infância, que só poderia existir através de lembranças. Quase todos os pouquíssimos estrangeiros que conseguiram encontrar essa maravilhosa cidade sofriam dessa espécie de amnésia. Mas havia aqueles que, fascinados pela cidade, decidiam ficar e abandonavam tudo para poderem continuar vivendo no brilho e na perfeição perenes de Brilhossol.

Mas como íamos dizendo, hoje é dia de festa em Brilhossol. Felizmente não há nenhum forasteiro de passagem, pois com a festa já se tem agitação suficiente para esta pacatíssima cidade, onde tudo costuma estar em seu devido lugar. As festas em Brilhossol são uma tradição de tanto tempo que não se sabe nem desde quando. Da fundação da cidade tem-se notícia apenas através de um livro muito grosso e antigo, que não traz data, mas no qual há uma descrição do local que, com poucas modificaçöes, continua correspondendo à Brilhossol atual.

Mas antes de ver esta festa tão bonita, vamos falar um pouco mais da cidade, da gente da cidade, da vida da gente da cidade de Brilhossol.



domingo, novembro 19, 2006

MASCULINO E FEMININO


O que o homem vê
se desenha com a força do querer.
Já a visão da mulher
segue rastros impalpáveis:
rios de vida que fluem
silêncios subterrâneos
de tudo o que é
e que ainda vai ser,
refluindo e refiando
o que já foi.


Vai o homem
carregando com esforço
todo o mundo às suas costas.
Fica a mulher
tecendo e cortando
cabos, laços e nós
inexistentes,
que sustentam
o mesmo mundo,
flutuante.

quinta-feira, novembro 02, 2006

A SEDE DOS TEUS OLHOS



Desejos dormentes,
sementes no deserto.
Nem um gota de chuva
vem lamber a areiar fina
que soterra o teu corpo



Um quarto selado
impede a visão
dos horizontes longínquos

que teus olhos querem ver

Quero ser a janela,
descortinar a praia:
onde a vista bebe
o infinito do céu,
onde a água salgada
ressucita teu corpo,
onde o sol radiante
faz desaparecer
a poeira dos juízos.



Eu queria poder
agarrar tua mão
pra cruzar o umbral
que faz precipitar
toda iluminação
e o doce manancial
com cheiro e sabor a mar
capaz de despertar
sementes no deserto!



(Foto do deserto de Atacama, no Chile, o deserto mais seco do mundo, onde a cada 10 ou 15 anos chove em alguma pequena área e sementes - que estiveram, as vezes durante séculos, dormindo enterradas entre as pedras - germinam, formando tapetes de flores.)

sábado, outubro 28, 2006

SINTONIA

Ondas médias, curtas e longas
dão em ritmos do coração
Não me peça decodificação do amor
nem fraternal, nem sexual.

Fios invisíveis me ligam a você
Calor e comunicação

Essa linguagem não tem código,
está livre deste ódio
que é a convenção social
É só a alegria inocente,
o perfume de viver,
a beleza simples de uma cor
que evita toda explicação

sem como quando nem por que.